Se você quiser ser eficiente com o seu consumidor, seja curto! Me vi obrigado à adotar essa tese simplista e hoje, começo praticamente todo novo trabalho com ela. Por menores e mais diretas que estejam a peça, apresentação ou palestra, padeço de uma bulimia intelectual mais ou menos assim: “huuum, acho que ainda tá grande... dá pra cortar mais alguma coisa”. Confesso que para quem gosta de falar, como eu, e possui perfil preciosista, sofrer de bulimia intelectual no começo não é fácil. Mas o que fazer se a bulimia está na moda? Vejam: Advice and Consent, de Allen Drury, venceu o prêmio Pulitzer em 1960 com 640 páginas. On the Bullshit, de Harry G. Frankfurt venceu o mesmo prêmio em 2005 com 68 páginas. O culto à magreza chegou à literatura. Gorduras foram realmente cortadas ou o direto ao ponto hiper valorizado?
Esse artigo, por exemplo. Por melhor que seja, quanto menos letras tiver ao primeiro olhar do leitor, maior sua chance de ser lido até o final. As pessoas buscam hoje mais a essência das idéias e menos suas reflexões. Não canso de ouvir: “a palestra de 1h do fulano foi boa por duas coisas bacanas que ele falou”, “esse livro é muito bom, mas poderia ser mais curto”, “o filme tem quase quatro horas, é muito”. O tempo do sucesso e da vida útil dos produtos também encolheu. Pode ser uma música do seu artista favorito ou o seu iphone. Poucas coisas duram mais que 12 meses. Se o Renato Russo compusesse Faroeste Caboclo hoje, seria grande a chance dele fazer uma lipoaspiração na letra. As novelas da Globo tinham mais capítulos e suas aberturas eram mais longas. Hoje, até as famosas “cenas do próximo capítulo” foram retiradas. Os comerciais, os programas de tv, os livros, os ensaios, as palestras, as peças de teatro, as viagens, as refeições, as paqueras, as consultas médicas, os cultos, os relacionamentos e até os beijos eram mais longos. Já tentaram assistir um vídeo no youtube que tenha mais de seis minutos? Parece uma eternidade. Poxa, mas ele só tem seis minutos! Na Internet, a exigência por conteúdos absolutamente curtos ou “drops”, para usar o termo da moda nos Estados Unidos é ainda maior.
Nem o celular escapou. Essa semana, vi uma campanha rolando na blogosfera chamada “não ao voicemail”. Ela sugere que ouvir mensagens de voz no celular é uma grande e irritante perda de tempo. Mais de 90 mil pessoas já haviam aderido à campanha e configurado os recados de suas caixas de voz com uma mensagem default parecida com essa: “Oi, você ligou para o fulano. Por favor, não deixe um recado nessa caixa postal, já que eu raramente a acesso. Se quiser me contatar, me envie um sms ou um email para a conta fulano@fulano.com. Obrigado. Fulano”. Daí eu me pergunto: estamos exagerando, nos defendendo ou sendo inteligentes? Eu mesmo me senti tentado a configurar o meu celular com essa mensagem. Mas não tive coragem. Outra questão que levanto é: ficamos mais rápidos, por isso valorizamos a essência ou preferimos a essência porque não temos mais tempo. Acho que um pouco dos dois. O fato é que se desejamos ter um longo e relevante relacionamento com os nossos clientes, ser bulímico intelectual ajuda muito.
Caro amigo Payão, excelênte post.
Este assunto já tem sido abordado de inúmeras formas há um bom tempo, mas achei bastante criativa a forma como tu colocas, referindo uma "bulimia intelectual".
Gostei das questões levantadas e arriscaria uma resposta à tua questão final, onde dizes: "...ficamos mais rápidos, por isso valorizamos a essência ou preferimos a essência porque não temos mais tempo"
Creio que estamos principalmente valorizando a essencia porque não temos mais tempo sim, mas também porque, hoje, e principalmente com a Internet, temos infinitamente mais conteúdo à nossa disposição do que anteriormente. Precisamos ser rápidos. Mas, é claro, também trabalhamos muito mais, precisamos estar muitíssimo mais atualizados do que antes. Sempre up-to-date! Isto nos remete a procurarmos a essência das coisas. Tempo é dinheiro, ou melhor, é um diferencial na carreira ou até mesmo uma horinha a mais de descanço em casa.
Fora da Internet, não sei porque o Pulitzer agora vai para obras menores, mas sei que a cultura da velocidade, potencializada pela Internet, afeta a todos e a tudo. Ela está, definitivamente, mudando nossa cultura, mudando nossa noção de tempo entre tantas outras coisas.
Resta-nos aceitá-las (as mudanças) e mudarmos junto com elas, sob pena de nos tornarmos, como todo bom corôa, saudosos da "velha e boa velocidade de nosso tempo".
À propósito, não tenho nadíssima contra caixas postais e até gosto quando tem uma mensagenzinha lá para mim (tá bom, eu sou carente), mas gostei tanto da proposta de mensagem, achei tão criativa e útil, que vou colocá-la em meu celular ainda hoje, se der tempo. ;)
Posted by: Jones Bergh | 07/11/2008 at 15:37
Muito bom e atual mesmo o texto parabens!
Some-se a isso outros fatores como o nivelamento de base, em geral todas as comunicacoes nivelam seu publico por baixo. As novelas, seriados, filmes, publicidade etc tem apresentado esta lingugagem super dinamica e simplista. Eh o famoso nao me faz pensar, as empresas querem dinheiro e exigem metas, natural que para chegar a isso surja o excesso na industria cultural e consequentemente o esvaziamento cultural justificados pela falta de tempo. Todo mundo precisa correr hoje em dia e qualquer coisa que exija um minimo de reflexao se torna algo chato, cansativo, incomodo. A industria de cinema americana ateh faz pesquisas para saber o que o publuco quer ver nas telonas, ai nao adianta reclamar da formulazinha previsivel, qualquer final diferente dos padroes gera estranhamento e esta tecnica traz muita bilheteria e dinheiro em detrimento da cultura e percepcao. Mais um pouquinho soh e o que veremos eh o Big Brother la dando ordens para a massa alienada (to exagerando? Ou nao?).
Enfim, se for rapido e facil ficamos estimulados, se nao for achamos complexo e irritante. Creio que a internet acelerou este processo e neste caso, o da internet, concordo que seja assim pois ha a profusao monstruosa neste meio mas dai espalhar este conceito para todos os demais meios comunicacionais ai nao tem saida, veremos mesmo uma massa Big Brother buscando a essencia e desprovida da propria.
Posted by: JFerraz | 07/13/2008 at 09:58
Olá Rafael,
Vou ser breve, juro! rsrs
Acredito que seja falta de paciencia mesmo dos ouvintes, reparou que até seus exemplos se referema a isso? Os ouvintes estão cada vez mais impacientes, enquanto aos locutores, bem... Esses muitas vezes por algum motivo ainda se estendem para dizer o que querem.
O mundo está rápido e as pessoas estão com pressa.
Posted by: Antonio Mafra | 07/14/2008 at 14:10
Ah, não li não, texto demais! Dá para ser mais sucinto da próxima vez?
É brincadeira ;-)
Excelente post.
Posted by: Elcio Ferreira | 07/21/2008 at 19:04
Rafael, sinceramente confesso que estou adepta à rapidez. Quem não conseguir prender a minha atenção em 5 segundos, bye bye...algum outro o fará. Na verdade, eu to sofrendo de anorexia no consumo de mídia...Brincadeiras à parte, parabéns pelo texto. Vou recomendá-lo em meu blog. Abs, Carol Terra (http://rpalavreando.blogspot.com)
Posted by: Carolina Terra | 07/22/2008 at 11:24
Maravilhoso post Rafael!!
Realmente estamos vivendo uma correria total e isso é sentido em todos os ambientes que vivemos, seja familiar ou profissional. O ser humano precisa fazer 50 mil coisas ao mesmo tempo e acertar em todas elas, ou seja, nada de erros e sim idéias inovadoras que sempre nos faça ganhar mais tempo e consequentemente mais dinheiro. Acredito que por este caminho chegaremos ao fim dos relacionamentos face to face, que pra mim são mais importantes do que um simples recadinho no orkut ou um e-mail.
Abrs.
Posted by: Paola | 07/22/2008 at 11:49
Rafael, parabéns pelo texto e pela sacada!
O que acontece com as pessoas hoje é a falta de tempo e o ritmo frenético que as obriga a quererem pílulas de informação. Isso explica o sucesso dos SMSs e twitters da vida: a informação em 140 caracteres! 140 caracteres para prender a atenção do leitor, conquistar sua confiança e ainda levá-lo à ação. Demasiado? Muito pelo contrário: superficial. E no entanto, é o que temos para hoje!
Abraços,
Stelleo
http://www.mercadolivre.com.br/mlog
Posted by: Stelleo Tolda | 07/22/2008 at 13:30