Você já deve ter ouvido uma centena de vezes: “a Internet está roubando a audiência da televisão”. Tudo bem, nada de errado com a frase. Mas o tom apocalíptico, que normalmente acompanha essa afirmação, além de apaixonado, ajuda a não mostrar os limites que o gerúndio esconde. Dependendo do contexto, dá até pra ficar com um pouquinho de dó da TV. Coitadinha. Tanto poder encarnado em um cadáver em decomposição! Os ataques chegam em coro, a ponto de afastar da visão de muitos entusiastas um outro lado dessa história. E é exatamente esse lado onde - nesse momento - muitos anunciantes americanos começam a lançar olhares bastante atentos. Falo da audiência conjugada entre Internet e TV, uma das grandes parcerias a serem exploradas e entendidas nos próximos anos. O furto pode funcionar como uma troca.
Veja o resultado de uma pesquisa, feita pela Harris Interactive (www.harrisinteractive.com), em fevereiro de 2008 e divulgada na semana passada pelo eMarketer (www.emarketer.com): mais de ¾ do usuários de Internet americanos, entrevistados pelo estudo, disseram que navegavam pela Internet enquanto assistiam televisão. Destes, 53% consultaram e-mails, 32% acessavam conteúdo não relacionado ao programa de TV assistido, enquanto 19% afirmaram estar conectados a conteúdos relacionados ao que era transmitido. Além do controle-remoto, telespectadores passam a ser cada vez mais “multitasks”. A falta de tempo, começa a obrigar muitas pessoas a comprar, pesquisar, baixar músicas, arrumar a library do i-tunes, ler e-mails pessoais, dar uma brincada no Youtube e uma centena de outras coisas enquanto assistem TV. Mas vejam, enquanto assistem TV e não em um quarto isolado nos fundos da casa. E como o acesso domiciliar à rede está cada vez mais no colo, já que os preços dos laptops caíram, navegar durante um jogo de futebol, novela ou jornal é algo que faz sentido para um número cada vez maior de pessoas. Bem, o que nós temos então? Milhões de telespectadores próximos de seus cartões de crédito, a alguns cliques de uma loja virtual ou site promocional e no ambiente tranqüilo de suas casas. No mínimo tentador para qualquer diretor de marketing. Nos Estados Unidos, campanhas como as do Twix – need a moment, AT&T e Target, aos poucos, deixam de exibir os protocolares e semi-invisíveis domínios no final de seus filmes para literalmente motivar consumidores a navegarem enquanto assistem TV.
A televisão leva gente para a rede das empresas enquanto a Internet potencializa a audiência da TV. É como se o filme visto fizesse mais sentido e ganhasse um pouco mais de relevância porque continua no ambiente de produção do consumidor, seu computador. Sem falar na impulsividade que desperta. A televisão, cada vez maior, com melhor definição, maior número de funções e brevemente com Internet no controle-remoto continuará exercendo um poder considerável na vida das pessoas. O que muda é o timing e a forma de explorar a mídia. O desafio será a forma de dividir a atenção do consumidor, principalmente os da geração Y, em breve, conectados e habilitados para assistir conteúdo áudio-visual no trabalho, espera do dentista, aeroportos e em casa. Mas se a TV terá Internet e a Internet transmitirá TV, quem será o ladrão de quem no futuro?
Olá, Rafael. Muito bom o texto e de grande relevância para o momento.
Creio que a TV continue a existir nos moldes em que a conhecemos hoje, com algumas inovações, claro, mas continuará sendo um canal de comunicação com um único emissor e as pessoas gostarão disso.
Por quê? Parece um pensamento retrógrado, não? Mas eu explico: a internet nos demanda muito mais atenção, dá brechas para a dispersão o tempo todo, iniciamos tarefas e não as terminamos, perdemos a noção de tempo e nosso cérebro deve piscar de todas as cores nesse momento. Chega uma hora em que interagir se torna uma tarefa exaustiva (digo isso pq sou uma heavy user). Enquanto, a TV será a opção de relaxar, assistir conteúdo pronto, pré-empacotado, e será uma ótima opção de se esparramar no sofá e esquecer dos cliques.
Concordo com o que já acontece (faço muito, inclusive), assistir TV e navegar ao mesmo tempo, mas creio que essa será a saída da TV enquanto computador e televisão não se tornam um aparelho só.
Posted by: MissMoura | 05/14/2008 at 14:18
Rafael,
Sou sua fã, e como tal não podia deixar passar um comentário.
Imagino que talvez tenha sido intencional, mas, espectador seria com "s", enquanto expectador é aquele que tem expectativa. Portanto, sei que os dois cabem na matéria, de qualquer forma, acho que vale a lembrança. Abraços.
Posted by: Laura Barreto | 12/16/2008 at 13:43