Calma, não se preocupe, esse artigo não é sobre mulheres abandonadas, homens traídos e orgias virtuais. Pelo contrário. Acordei hoje com a pretensão de - ao invés de escrever sobre – tentar descrever a Internet. Mas qual Internet? Seria a web corporativa, infantil, a transacional, publicitária, pornográfica, séria, jornalística, prestadora de serviços, socialmente responsável, criminosa, da inclusão digital, da esperança, do emprego, a eleitoral, das mentiras, das verdades, do preconceito, das surpresas, da companhia 24h, dos negócios, do Nelson Rodrigues? Opa, espera aí! Como assim do Nelson Rodrigues? O homem morreu em 1982 – sem nenhuma arrobinha pra contar história. Sim, ele mesmo.
É que o universo digital abriga tantas versões ligadas umbilicalmente às verdades do ser humano que faz da Internet um espelho do cotidiano de todos nós. Melhor, do cotidiano de como seremos. Bem, acho que ao invés de “A Internet como ela é”, essa coluna deveria se chamar “A Internet como elas são”! Aliás, alguma coisa me diz que se Nelson Rodrigues estivesse vivo, ele seria um blogueiro de dar inveja a qualquer vírus. Sem muito esforço, consigo até imaginar algumas eventuais pérolas e-Rodriguianas que brotariam de seu teclado a todo o momento.
Nuvenzinha de sonho no ar: “Toda mídia 100% offline é burra”, “Toda campanha (sem Internet) gosta de apanhar”, “A Internet não é culpada de nada. Nós é que somos culpados de tudo” e por aí vai. Ah, ele estava certo quando exigiu diretos autorais da Bruna Surfistinha, que após protagonizar um de seus vídeos experimentais online, chupou o roteiro na maior cara dura e fez o maior sucesso se beneficiando de sua personagem. Uma idéia virtual se materializou. Nessa ficção bem realista, confesso ainda não ter identificado quem era a personagem do Nelson, a Bruna Surfistinha ou seus clientes, tarados pelo novo brinquedo de serem avaliados publicamente – on demand – sem vergonha. Quanta imaginação! Só mesmo uma mente vertiginosa, fora da realidade como a Rodriguiana para supor a existência de um voyerismo de si próprio. Quem se interessaria por isso?
A quem diga que o Orkut também saiu do seu blog – em um post em que clamava esperar, segundo comentários, ansiosamente da Internet a chegada de um ambiente onde pudesse ampliar sua experiência de espiar as pessoas – como na sacada de sua casa. Poder ver sem ser notado o estado atual de antigos amigos, namoradas que haviam lhe dado um belo e sem dó pé na bunda, ex-desafetos, etc, seria para ele uma “utopia materializada da alma” . Reencontrar amigos da escola, ah, isso é desculpa das mais esfarrapadas. O desejo mesmo é espiar, nada mais.
Nuvenzinha se desfazendo. Saindo um pouco da web Rodriguiana, às vezes acho que chega a ser injusto chamar a Internet de Internet. Como talvez não fosse correto dar à Via-Láctea o nome de planeta Terra. De que planeta estamos nos referindo quando julgamos a Internet ineficiente ou ainda emergente? Seria aquele habitado por crianças em sites de desenho animado? Talvez a rentável estrela do marketplace brasileiro que gerou em 2005 mais de US$ 54 bilhões. Ou o cometa batizado “Comércio Eletrônico’’ que atribui a 4 milhões de brasileiros o direito de comparar e comprar seus produtos 24h? Quem sabe a web dos apocalípticos? O fato é que muitos ainda vêem esse universo como um só. Por isso, quem sabe, o correto não fosse tentar descrever a Internet, mas sim as visões míopes formadas nas mentes das pessoas. E como a mente, mente, cuidado com o tamanho da sua Internet. É você, ou sua mente, quem determina seu potencial. Querem ver? Existe um respeitado site chamado adverblog.com. Pelo nome, acho que dá pra imaginar do que se trata. Ele possui 43 tópicos sobre marketing e – pasmem – em nenhum deles a palavra Internet é citada.
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Reparou o que aconteceu com a palavrinha Internet? Como o ar, deixou de existir na percepção de uma mente que enxerga essa Rodriguiana ferramenta como um universo ao invés de um simples planeta. Leia novamente os tópicos do adverblog. Repare como a Internet se infiltrou e existe de maneira imperativa. Mais do que como ela é, me importa como ela será: bonitinha, mas ordinária!