É difícil perceber a história quando ela está sendo escrita. Desafio maior é entender seus sinais e avisos. Fiquei curioso e fui atrás do significado e origem da palavra “história”. Descobri algo interessantíssimo! Saibam que ela veio do grego historien (“narrar”), que por sua vez, originou-se de outra palavra grega, histor (“juiz”). Assim, teoricamente, a história não apenas faz uma narrativa, mas também a julga, organiza-a e lhe dá sentido. O fato curioso é que até outro dia, o grande juiz (“histor”) dessa história, em via de regra, era uma pessoa: quem a escrevia. E como sabemos, muitas versões de vitórias, fracassos, justificativas, escravidões e explicações - antes de serem documentadas - atendiam a interesses de quem detinha o poder ou do grupo vencedor. De isenta, a história não tem nada. Nem mesmo sua raiz etimológica a protege. Pois bem, e agora?
O que fazer quando de repente, não mais que repente, o Sr. Magistrado envelhece, se aposenta e passa o bastão a milhões de juízes? Alguns os chamam de “internautas”. Vale dizer que esses novos julgadores reúnem uma alta dose de energia, testosterona e vontade de se expressarem. Sentimentos represados por uns três mil anos, talvez. Por isso são bastante exigentes em seus julgamentos, não costumam perdoar, valorizam o que é original e mesmo com todas as armas em suas mãos, ainda apresentam traços intactos de ingenuidade. Estamos revivendo muitas características adormecidas.
Vejam a web 2.0. Um de seus mais fortes pilares consiste na importante participação do usuário dentro do crescimento orgânico do projeto online, certo? Em outras palavras, o consumidor, participa, escreve, arquiteta e chancela. A partir daí, o conteúdo e repertório de serviços ganha ramificações que vem de fora para dentro. Um bom exemplo da nova história mundial é o wikipedia. Diferente da enciclopédia Britânica, o wikipedia apresentará em 50 anos a história narrada e julgada por milhões de pessoas. Isso não é fantástico? O que será que será? Quando nos rendemos às maravilhas da Internet, estamos, na verdade, apenas reivindicando aquilo que é nosso direito inalienável: interagir. E o campo para novas versões de vidas anda cada dia mais provocativo. Além de escrever a nova história, os “neojuízes” adoram contá-la! Vivemos a época dos juízes contadores de histórias. Reparem na oportunidade ou no perigo que isso pode representar para sua marca. Seus clientes estão virando escritores! Felizmente, não da Academia Brasileira de Letras, mas do cotidiano. E os que não escrevem lêem... Uma das principais razões do sucesso do blog da Bruna Surfistinha foi a relação bem humorada e ingênua de posts dos leitores. Sucesso compartilhado. Isso é uma nova história!
Antes costumávamos valorizar apenas os escritores renomados, autores profissionais, romancistas, especialistas, os pais da matéria. Agora, além deles, estamos aprendendo a gostar de ler a “obra” de novos escritores: agentes de viagens, corretores de imóveis, economistas, bancários, engenheiros, médicos, prostitutas, etc. Como será a versão deles do passado? E como o futuro acolherá suas interpretações? Imaginem como a visão de nós mesmos seria muito mais acurada e interessante, se hoje tivéssemos acesso aos relatos de pessoas anônimas que viveram no Egito antigo, outros durante a independência do Brasil, daqueles que viram a queda de Roma e assim por diante. Em um contexto como esse, sugiro que profissionais de marketing atribuam um novo sobrenome à palavra consumidor. Que tal chamarmos de consumidores-escritores? Lembram daquele velho ditado? “para ser um bom escritor, é necessário antes ser um bom leitor”. Mudando um pouco para o mundo do marketing, “para se comunicar com um consumidor-escritor, é necessário antes ser um bom leitor desse consumidor e interagir com ele”. E uma coisa eu digo a vocês, adquirir essa cultura não é algo que se compra. E mesmo tendo a sorte de encontrar alguns atalhos, leva tempo. Muitos anunciantes se quer identificaram suas vocações digitais e já estamos falando de web 2.0. Antes o sucesso de sua marca era um processo que vinha de dentro para fora. Agora é de fora pra dentro. Trocando em miúdos, sucesso compartilhado. Procure incorporar os novos juízes no planejamento de sua estratégia de comunicação. Se eles esquecerem de sua marca, talvez sua história acabe rápido.