Olhem que negócio interessante. Por mais que eu passe o dia inteiro conectado à Internet, a maioria das coisas que faço está fora dela. E acho que ainda continuará assim por mais uns mil anos. Namorar, fazer xixi, passear com o cachorro, abrir um presente, cantar parabéns, jantar, viajar, dirigir, escrever, planejar, subir escada, beber, me perder, ir ao cinema e assim por diante. Eu nunca gostei do termo “Internauta”. Ô coisa de mal gosto! Quando você assiste Tv, te chamam de Tvnauta? O fato é que como a web está lá, os e-mails na caixa postal, os vídeos no Youtube e boa parte do conteúdo armazenado, é o usuário quem decide quando deseja interagir com determinada aplicação online. Por isso - felizmente - posso ter minha vida fora da rede e ainda ser produtivo usando a web.
Essa relação só é possível porque a Internet não tem programação. Imaginem o Youtube com horário nobre. Faz algum sentido? Chega a soar meio velho, ultrapassado, não acham? Na web é o consumidor quem se programa. Ele controla seu tempo. Esse Time-shifting pode parecer, mas não é nenhuma novidade e existe desde que o ser humano começou a gravar informações. A diferença é que agora a tecnologia não é mais um limitador. Pelo contrário. Vamos a um exemplo: quem não usou o jurássico videocassete para gravar o Jornal Nacional (e assistir durante a novela) que atire a primeira pedra. Outro caso prático e bastante antigo de como valorizamos controlar nosso tempo é o livro. Sim, o livro. Lemos quando queremos, certo? A mesma regra serviu para o sucesso do LP. A possibilidade de escutar as estrelas da Rádio Nacional centenas de vezes e quando sentiam vontade encantou nossos avós. E olha que eles tinham tempo de sobra para gastar. Poucos repararam, mas estamos sendo preparados para essa revolução desde que Gutemberg inventou a imprensa.
Nesse ritmo e com o incentivo da tecnologia, milhões de consumidores estão valorizando/comprando cada vez mais dispositivos ou mídias que transmitam o controle ao usuário. Não se trata de moda, mas a chance de possuir o que sempre desejamos ter disponível. É um caminho sem volta. Dispositivos como I-pods, Smartphones, Palms, Sony PSP, WiMax, além de turbinar o Time-Shifting, exemplificam a materialização de outra prática que também parece nova, mas não é: Place-shifting.
Me refiro à capacidade de levar com você aquilo que deseja acessar. O Walkman foi o primeiro a nos possibilitar escutar o que queríamos no lugar e no momento certo. Esperar horas para aquela música tocar no rádio de repente não fez mais sentido para muita gente. E isso na década de 80! Alguma semelhança com o sucesso do todo modernoso podcast definitivamente não é mera coincidência.
E o movimento de anarquia digital que esses novos brinquedos irão brevemente causar se quer começou. Vejam só: o novo Sony Play Station portátil possui um leitor RSS em seu firmware, o lançamento do I-Phone fez as ações da Apple dispararem, o VOD (Digital Cable Vídeo On Demand) é o assunto do momento nos States e a Tivo acaba de lançar o TivoToGo, que possibilita a transferência dos programas gravados a todos esses novos devices.
A adaptação aos novos aparelhos não deve ser difícil, já que pega carona com os recentes comportamentos digitais e exigências adquiridas pelos consumidores nos últimos 10 anos. Sobre as principais motivações que movem a massa, existe algo mais pertinente ao momento que vivemos do que liberdade e economia de tempo? Em breve será difícil determinar a diferença entre o que é on-demand e on-drive. Esse cenário deve mudar drasticamente o papel de muitas mídias não interativas. Rádio, Revistas e Jornais serão mais valorizados por suas capacidades de análise e de oferecer um conteúdo menos perecível que queijo, do que a simples transmissão de novas informações e coberturas. E acho que um dia ainda irão cobrar caro por isso! A missão de informar os acontecimentos factuais no momento em que ocorrem ficou com o mundo digital.
O não factual, as análises, opiniões, comentários, reportagens especiais, programas, etc, além de terem suas vidas úteis aumentadas, devem ser atualizados automaticamente e acessados pelo usuário no momento individual de cada um. Certamente o novo poder de controlar nossa relação com a mídia é um dos mais potentes. E naturalmente conduzirá veículos e anunciantes a criarem uma nova ordem. Para encerrar, deixo vocês com um exemplo de Time e Place-shifting do maior artista vivo brasileiro, Chico Buarque: “Meu caro amigo, me perdoe, por favor, se não lhe faço uma visita. Mas como agora apareceu um portador, mando notícias nessa fita”. Meu caro amigo. Francis Hime – Chico Buarque, 1976.